sexta-feira, outubro 07, 2005

Ás armas, ás armas...

Damos uma saltada a Rocha, distrito mais a leste do Uruguai, fazendo fronteira com o Brasil.

Também aí são visiveis os testemunhos da presença portuguesa no país, traduzidos em instalações militares agora transformadas em monumentos nacionais, englobados em Parques naturais, aproveitando as condições especificas de fauna e flora locais.

São duas as instalações militares em causa, o forte de San Miguel e a fortaleza de Santa Teresa, edificações que, dependendo da visão estratégica, serviam para defesa das linhas de abastecimento portuguesas que se destinavam a Colónia del Sacramento (por lá passaremos um dia destes) ou simplesmente para defesa do território no caso espanhol e depois uruguaio.

Começando pelo forte de San Miguel, de menor envergadura e que fica a não mais que 10 Kms da fronteira com o Brasil, perto da cidade de Chui (tornada famosa nestes dias pela sua enorme colónia árabe).


O forte foi edificado pelos portugueses em 1737, depois de uma tentativa de povoamento daquela zona por parte dos espanhois 3 anos antes. O responsável por essa tarefa foi o Brigadeiro José da Silva Paes, enviado expressamente do Rio Grande do Sul.



A fortificação foi passando pelas convulsões habituais á época, tempo de confronto entre os dois reinos, até que pelo Tratado de Madrid em 1750, a Espanha cede o dominio de toda a área correspondente ao actual distrito de Rocha, ficando em compensação com a praça forte de Colónia del Sacramento.


Em 1761 a Espanha denuncia o referido tratado e na Campanha que se segue acaba por tomar definitivamente o forte, que se rende sem luta. A partir dessa altura o forte perde a sua importância estratégica que não volta a recuperar, nem mesmo nas invasões portuguesas de 1811 e 1816.

A fortaleza de Santa Teresa, a cerca de 35 Kms de Chui, foi mandada erigir pelo Conde da Bobadela, que deu ordens ao Coronel Tomaz Luis Osorio e ao seu regimento de Dragões do Rio Pardo, força de elite do exército português, que se estabelecessem na área, de forma a proteger não apenas a linha de abastecimento portuguesa mas também a entrada para o Rio Grande do Sul.



Assim em 1762 lança-se a primeira pedra e levantam-se as primeiras barreiras do que viria a ser a Fortaleza de Santa Teresa, santa de devoção especial do Conde da Bobadela. No entanto, ao contrário do forte de San Miguel, não foram os portugueses que a construiram mas sim os espanhois, que no seguimento da Campanha já referida e que culminou na tomada de San Miguel, viriam a avançar na construcção definitiva de Santa Teresa, encarregando para tal o engenheiro francês Bartolomé Howel.


Depois de mais alguns confrontos, é através do Tratado de Santo Ildefonso em 1777 que Portugal volta a recuperar o Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina, ficando os espanhois com o territorio que constitui hoje o distrito de Rocha. Mas a estória não termina aqui...



Já no período da Revolução Oriental, os portugueses viriam a conquistar novamente a fortaleza de Santa Teresa em 1811 para a ceder novamente por via diplomática pouco tempo depois. Na Campanha de 1816 os portugueses tomam a fortaleza pela ultima vez, através do comando do Barão Carlos Federico Lecor, mantendo a sua posse até á independência do Brasil, que ainda a manteria até 1828, altura em que foi desactivada.



Ambas as instalações são então votadas ao esquecimento até á decada de 20 do século passado, altura em que são consideradas patrimonio nacional e são recuperadas e requalificadas, sendo hoje dos pontos turisticos de maior interesse do Uruguai.